terça-feira, 12 de janeiro de 2010

De mudança

Quatro meses depois de chegar à China, inicio uma nova fase do blog
Boca de Gafanhoto, que agora será hospedado no Dzaí, dentro do portal
Uai. Com a ajuda inestimável do meu chapa André Gregório, migrei todo
o conteúdo do blog original pra lá, incluindo textos, fotos, vídeos e
caracteres chineses. As atualizações agora serão muito mais freqüentes
- promessa! - e, espero, não terei mais problemas em acessar meu
próprio blog, porque nas últimas semanas o Great Firewall of China
anda mais reforçado e eu sequer conseguia ler os comentários dos
leitores.

Enquanto não redireciono o endereço pontocom pra lá, entrem por esse aqui:

http://www.dzai.com.br/bocadegafanhoto/blog

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

圣诞快乐!

O Natal é uma coisa meio nova pros chineses, que se abriram para o mundo há relativamente pouco tempo e tentam assimilar toda a cultura ocidental do jeito que dá. O que significa que nessa época é fácil encontrar um monte de árvores iluminadas, muitos restaurantes servindo peru na noite do dia 24 e a figura do Papai Noel ("Shengdan Laoren", em mandarim) devidamente explorada pelo comércio, mas dificilmente se vê o menino Jesus cercado por vacas e ovelhas, seja em presépios, seja em cartões de Natal. Não dá pra culpá-los: primeiro, que não são cristãos; segundo, que a imensa maioria de filmes e desenhos que chegam do oeste foca mais no Pólo Norte do que em Belém, e convenhamos que a compração e a comilança desenfreadas são muito mais a cara do Natal dos dias de hoje.

Enfim. O Natal acabou de acabar, mas deixo aqui duas fotos que simbolizam bem o espírito dessa data tão festiva. A primeira é de um inusitado Papai Noel chinês lendo os números vencedores de um sorteio no jantar do qual participei. A outra é da árvore de Natal mais original que já vi na vida, situada no lado de fora do Bla-Bla-Bar, no campus da BLCU. Cadeiras empilhadas, galhos amontoados e luzinhas pisca-pisca amarrando tudo, numa demonstração muito bonita de que o que vale é a intenção. Shengdan kuaile!




terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Alô alô brasileiro

Vivendo num reduto de estrangeiros como é Wudaokou, às vezes me esqueço de quanto somos criaturas exóticas no meio de uma multidão de cabelos pretos e olhos puxados. Perambulando pela Cidade Proibida e a Praça da Paz Celestial, no último domingo, fiquei surpreso com a quantidade de chineses que veio puxar papo comigo, assim sem mais nem menos. Alguns poucos intentam te arrastar para galerias de arte onde expõem e vendem pinturas a precinhos nem tão camaradas, mas a maioria quer mesmo é praticar o (ch)inglês ou entender o que um alienígena tá fazendo em Beijing. Se você fala um mínimo de mandarim então, nem que seja um "nihao" no tom errado, vira atração. Até foto comigo pediram pra tirar. E quando perguntam de onde eu sou e respondo: "巴西", não tem um que não emenda: "football!", ou "soccer!", ou "足球!", ou "you must play football very good!" (é, quem me conhece sabe o quanto sou habilidoso). Só teve um caso de uma mulher que, ao ouvir "Baxi" como resposta, não mencionou o esporte bretão mas perguntou: "Ah, ¿hablas español?". Curioso pra saber como uma chinesa de raiz falava a língua de Cervantes, indaguei-lhe e ela esclareceu: "Yo no soy china, soy de Costa Lica. Soy plofesola de mandalín". Eu já tinha notado a dificuldade da população local em dizer coisas como "obrigado" ou "Firenze" (conheci chineses estudantes de português e italiano que falavam "obligado" e "Filenze"), mas uma costa-riquenha, ainda que de origem oriental, que não aprendeu a pronunciar um dos fonemas mais importantes de seu idioma nativo me surpreendeu. Palece que o esteleótipo de chineses falando que nem o Cebolinha tem seu glande fundo de veldade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Surprise me



Homer Simpson disse uma vez que não é homem de se surpreender facilmente (fala imediatamente seguida por: “O que é aquilo, um carro vermelho?!”). Ao pisar na China pela primeira vez, é difícil não olhar tudo com um ar intrigado, como se desembarcássemos no Mundo Bizarro de uma historieta do Super-Homem. Mas com o passar do tempo, a gente acaba se acostumando a ver algumas coisas. Hoje em dia eu (quase) não me surpreendo mais com:

1. Cuspes. Ia usar um eufemismo qualquer, tipo “secreções viscosas expelidas pela cavidade bucal”, mas a palavra certa é cuspe mesmo. É raro andar na rua sem ouvir os ruídos da puxada de ranho e da garganta raspando, seguido por um “ptu!” característico. Jovens, adultos, velhinhos, e – sim! – mulheres, inclusive as bonitas, curtem lançar saliva e companhia limitada em torpedos certeiros nos chãos da cidade. Mamãe ficaria horrorizada.

2. Camisas com estampas absurdas. Algumas recriam marcas famosas virando a ortografia de ponta-cabeça, como a já citada logo da Diesel que dizia “DSELEI”. Outra que me fez rir alto pelas ruas foi uma com a bandeira do Reino Unido e o texto que dizia: “New York, New York”. Sem falar nos diversos amálgamas entre Mao Tsé-tung e Barack Obama, resultando em desenhos do Barack com chapeuzinho comunista e o improvável nome: “Obamao”.



3. Camelôs vendendo de tudo. Bolsas, cadernos, cachecóis, macaco, praia, jornal. Livros – falsificados, é claro, mas geralmente sem páginas faltando; dá pra comprar por 10 yuans (R$ 2,50) o que vendem nas livrarias por 200. Comidas de todos os tipos, incluindo algumas que fedem (tofu, tô fora). Outro dia tinha até um camelô vendendo aquários com peixinhos vermelhos. Era fim de tarde e tava tão frio que a água começava a congelar, e os peixinhos lá dentro, uns nadando lentamente, outros já completamente imóveis.

4. Gente usando máscaras. (Não máscaras de monstros ou da Ópera de Pequim, bocó, falo das máscaras de proteção das que se compra na farmácia.) Se fosse no Brasil a gente imediatamente ia olhar e pensar: “Fudeu, gripe suína!”. Mas em Beijing elas são comuns por vários motivos, entre eles: a) protegem nariz, boca e bigode do frio de lascar que tá fazendo e ainda vai piorar, e b) Beijing é uma cidade notória por sua poluição, e tem dias que é mais saudável cheirar um cigarro aceso do que respirar o ar das ruas. Mas a moda é usar máscaras que não pareçam vindas do hospital, mas de um shopping center. Aí dá-lhe florzinhas, moranguinhos, Hello Kitty e Bob Esponja. Mas uma vez vi uma menina com uma linguona dos Rolling Stones estampada em sua máscara, foi divertido.

5. Bicicletas transportando as mais diversas coisas. Enquanto no Brasil a gente usa Kombis, caminhões e até carroças, em Beijing a galera curte uma bicicleta com carroceria pra levar de alimentos a bolas de basquete (?!). O cúmulo foi quando vi um ciclista carregando uma porção de botijões de gás em sua bike – e fumando ao mesmo tempo!



6. Chinglish. É como foi apelidada a insólita maneira chinesa de falar e escrever inglês por essas bandas. Se em cardápios brasileiros eu já me deparei com um certo “against-fillet”, aqui a coisa é muito mais comum e a gente fica surpreso é quando vê tudo escrito corretamente. Os exemplos já começam no meu quarto. No banheiro há uma placa avisando: “Do not put toilte paper into toilte”. As informações sobre as saídas de emergência do prédio incluem “you aer here” e “evaxuation route”. Também é comum substituir uma letra por outra “similar”. Tipo: “loud conversation not affowed”. Ou um cabeleireiro aqui perto cuja placa diz “hQirdresser”, assim mesmo, com um Q maiúsculo vandalizando o idioma.

7. Velhinhos se exercitando nas ruas. Com que freqüência você vê os seus avós fazendo jogging ou pedalando bicicletas? Na China a terceira idade é bem ativa e mesmo às 7 da manhã, com o frio que for, a gente se depara com senhores e senhoras praticando os intrincados movimentos do tai-chi-chuan ou chacoalhando o esqueleto em animadas partidas de tênis.



8. O trânsito caótico. Deixei esse pro final porque, na verdade, é o que menos me acostumei. Em três meses de Beijing eu ainda não sei como atravessar a rua. Sinais vermelhos e verdes são ignorados de tal forma que parece que todos os motoristas são daltônicos. Chega uma hora que você toma a decisão de atravessar e atravessa, pedindo pelo amor de Confúcio que não passem por cima. Andar de táxi é sempre adrenalina pura, buzinas são muito mais usadas que retrovisores e as ultrapassagens dão a impressão de que estamos jogando GTA, mas sem acesso ao joystick. E quando as motos cismam de invadir a ciclovia e se comportar como bicicletas selvagens?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Você sabe com quem está falando?



A língua chinesa tem uma porção de sons difíceis até de imitar, mas por outro lado carece de fonemas que nos parecem indispensáveis, como o som da letra V. Assim, nomes estrangeiros tipo Valadares ou Vladivostok viram coisas lindas como Waladaleisi e Fuladiwosituoke. Para os chineses, o presidente dos Estados Unidos é Balake Aobama, o do Brasil é Luyisi Yinaxiao Lula da Xierwa e os Pitousi eram formados por Yuehan Lienong, Baoluo Maikateni, Qiaozhi Halisen e Jilinge Sita. Todos os nomes próprios, sejam eles de pessoas, cidades, marcas ou personagens, acabam ganhando suas versões amarelas, de Alalakuala a Zhakaliyasi.

Por outro lado, a chinesada sabe que para grande parte dos ocidentais os seus nomes são uma sucessão de ruídos imemoráveis, e dão um jeito de criar contrapartes de que os outros possam se lembrar. Só que, geralmente, eles não soam nada parecidos. Se um Lucas aqui provavelmente vira um Lukasi e um Thomas se torna Tomasi, uma Jiao Jiao pode virar Emily, Agatha ou Anabelle.

Na hora de inventar um nome ocidental, o inglês é disparado a língua predileta. Joey, Penny, Dave, Mark. Mas se o chinês em questão é um estudante de outro idioma que não o de Hemingway, ele tenta se adequar a ele. Assim, já vi estudantes de alemão chamados Gerard e Michael; estudantes de italiano chamados Paolo, Sandro e Giovanna; e até uma porção de estudantes de português, com quem jantei um dia desses, que se apresentaram como – prepare-se! – Benjamin, Verônica, Julieta, Camilo, Rebeca e Figo.

Mas, esquisitos ou não, ainda estamos falando de nomes próprios previamente existentes, certo? Porque a criatividade do pessoal pode ir muito além da nossa vã imaginação. Prenda a respiração e confira os nomes mais, digamos, pouco ortodoxos de pessoas que conheci ou de quem ouvi falar:

Um aluno da minha amiga que se chama Eleven;

Uma coreana que escolheu para si o nome Mojito;

Um outro que se apresentou: “Olá, meu nome é Piña Colada”;

Mais um chinês que estuda alemão, mas em vez de Hans ou Fritz escolheu “Unique”;

A garçonete de um Starbucks cujo nome no crachá dizia: “Silence”, e seu colega de trabalho chamado “Fireman”;

Uma garota que conheceu uma Jasmim e disse, empolgada: “Seu nome é Jasmim, como em Chá de Jasmim? Meu nome é Cheese, como em Cream Cheese!”;

Mas o Prêmio Baby Consuelo de gosto mais exótico para nomes vai para uma chinesa que um amigo meu apresentou outro dia. Ele chegou com ela e disse assim:

- Pessoal, esta é Flamingo.

Foi impossível segurar o riso.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Comer comer



A comida da cantina aqui no campus é geralmente bem barata (pratos mais caros custam cerca de 3 reais), mas tem seus poréns. Algumas vezes você pede frango e vem umas partes esquisitas de origem indecifrável. Noutras você quer boi com ovos mexidos, e vem um pratão de ovos com uns cinco pedaços tímidos de carne lá no meio. Mas o principal problema é como pedir. Alguns balcões só têm cardápio em caracteres chineses, e sem saber diferenciar os ideogramas de peito de frango e intestino de pato você pode ter umas surpresas desagradáveis. Os menus supostamente em inglês são geralmente em “chinglish”, traduzidos de uma forma tão literal que fica até difícil de entender: “the beef covers the rice”, “the rice covers the vegetable”... Para os recém-chegados, as saídas mais fáceis são apontar (para uma fotografia ou para o prato de alguém), fazer mímica (cheguei a imitar um porco numa lanchonete certa vez) ou simplesmente escolher aleatoriamente e rezar pra vir algo que preste.

Fomos num restaurante de comida típica de Sichuan, uma província no sudoeste da China. A cozinha sichuânica (neologismo atravessando o texto) é famosa por ser extremamente apimentada. O lugar onde jantamos tinha até uma placa de algum guia gastronômico dizendo: “Spiciest Restaurant in Beijing”. E dá-lhe carnes e vegetais de todos os tipos carregados na pimenta, e cerveja gelada pra aplacar o ardor. Alguns na mesa estavam bebendo baijiu, mas eu só dei uns goles e larguei pra lá. Baijiu é uma bebida chinesa feita de grãos e extremamente alcóolica (pode chegar a 60%). E o gosto é terrível, a não ser que você tenha prazer em beber sabão. Ao final da refeição, alguém pediu intestino de pato e fomos experimentar. Foi um pedaço pra nunca mais: o troço tinha gosto de banheiro.

Hot pot também é bem comum por aqui. O princípio é simples. Você reúne a patota em volta duma mesa com um buraco dentro, cheio de água e com fogo embaixo. Taca carne crua lá dentro, umas verduras, uns camarões, assiste tudo cozinhar e depois tentar pescar o resultado com os palitinhos. Como numa seqüência de fondues, o barato é o processo completo de reunir os amigos e cozinhar sua própria comida. Por isso, quando fomos em outro lugar, fizemos o pedido e já trouxeram tudo pronto, foi aquela decepção. Hot pot que se preze tem que deixar o cliente trabalhar.

Aí você pergunta: cadê os gafanhotos? Pois é, finalmente fui à rua Wangfujing, célebre reduto dos espetinhos de insetos, mas ao que parece os grilos e gafanhotos tinham saído pra passear. Em compensação, as barraquinhas estavam repletas de bichos da seda, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos e muitos escorpiões. Muitos deles ainda vivos e mexendo as perninhas, mesmo empalados daquele jeito. Acho que quando você escolhe o de sua preferência, eles sapecam na gordura antes. Quando eu experimentar eu conto como é, se sobreviver.




E tem o Pato de Pequim, prato que leva o nome da cidade e que consiste em um pato laqueado e fatiado que você coloca em panquequinhas, adiciona molho e degusta como se fosse um mandarim. O restaurante onde fui, perto da Wangfujing, é um dos mais antigos de Beijing a ter o pato como atração principal. Dizem que cada pato vem com um cartãozinho indicando o seu número e que já estão na casa do bilhão, mas ou esqueceram de entregar o nosso ou era só lenda urbana. De qualquer forma, o pato laqueado merece a fama que tem e, se você tiver colhões, pode experimentar outras partes menos convencionais do bicho. Isso inclui a língua, o fígado, o estômago, o famigerado intestino, a pele dos dedos e até um prato especial de pato com escorpiões. Duvida?




Nas redondezas dos restaurantes e da rua dos espetinhos, perambulavam os gatos mais gordos que já vi. A gente sabe que para animais bem alimentados desse jeito não é recomendável ficar dando sopa por aí, ainda mais na China. Talvez o Gato de Pequim seja ainda mais consumido do que o Pato, só que ninguém percebe. Vai saber...

sábado, 31 de outubro de 2009

E agora, a previsão do tempo

Ao contrário do Brasil, onde só temos duas estações diferentes - calor o ano inteiro e chuva no verão -, na China o clima segue à risca o que aprendemos nas aulas de Estudos Sociais. Quando cheguei aqui, há pouco menos de dois meses, andar sem uma garrafinha d'água ou ficar em casa sem ar-condicionado era pedir pra desidratar. Em meados de outubro, o outono começou a dar as caras e o vento, impiedoso, derrubava bicicletas e arrastava criancinhas. Na última sexta-feira, minha professora começou a aula com uma expressão amedrontadora e pediu que nos preparássemos, porque neste fim-de-semana a temperatura chegaria a -2°C. Já tenho que andar com cachecol, gorro, luvas e duas meias na hora de sair na rua, e até já desmontaram o Beer Garden, o lugar onde todos os dias reuníamos o pessoal e que agora é só uma memória. Mas como o aquecedor central aqui do prédio só vai ser ligado daqui a duas semanas, achei que por agora teríamos que conviver apenas com um pré-inverno aceitável. A minha professora, no entanto, estava certa e é só comparar as três fotos abaixa, todas tiradas da minha janela, pra ver a evolução das estações em Beijing. A primeira é de 16 de setembro, a segunda de 25 de outubro e a terceira foi feita esta manhã, quando abri a cortina e me deparei com esse tempo maluco. Daqui a uns dias já dá pra voltar à infância que só conheço dos filmes e fazer guerras de bolas de neve.